O promotor de Justiça Lincoln Gakiya declarou que a decisão dos Estados Unidos de rotular o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas é extremamente séria e pode trazer complicações para o Brasil. As duas facções foram identificadas como Terroristas Globais Especialmente Designados e, a partir de 5 de junho, também serão reconhecidas como Organizações Terroristas Estrangeiras.
Gakiya é membro do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) e tem enfrentado as atividades dessas facções desde 2005.
Em uma entrevista ao podcast “O Assunto”, conduzido por Natuza Nery no g1, ele mencionou que não enxerga benefícios práticos na nova categorização. Para o promotor, existe a possibilidade de os Estados Unidos tentarem realizar operações militares clandestinas no Brasil, semelhante ao que aconteceu em países como México e Venezuela.
Impacto na cooperação policial
Segundo Gakiya, a recente classificação pode alterar a abordagem das autoridades americanas nas investigações relacionadas às facções brasileiras.
Atualmente, a colaboração ocorre principalmente na área policial, envolvendo agências como o FBI (Federal Bureau of Investigation) e a DEA (Drug Enforcement Administration), encarregada do combate ao narcotráfico nos EUA. Com a mudança para o enquadramento como terrorismo, o assunto poderá ser transferido para a CIA (Central Intelligence Agency) e os órgãos militares dos Estados Unidos.
Ameaçado de morte pelo PCC e responsável por investigações que envolvem as atividades da facção e operações financeiras ilícitas, Gakiya revelou à Folha de S.Paulo que recentemente participou de reuniões em Boston com representantes do FBI e da DEA para compartilhar informações sobre membros do PCC atuando em redes criminosas nos Estados Unidos.
“Com a classificação dessas organizações como terroristas, a responsabilidade pela coleta de informações e investigações passaria para a CIA, que trataria esses dados como confidenciais ou secretos”, explicou Gakiya à Folha. “Isso pode dificultar o fluxo ágil e rotineiro de informações que mantemos há muito tempo, prejudicando nossas investigações.”
Ameaça ao sistema financeiro
O promotor também enfatizou os possíveis impactos negativos no sistema financeiro brasileiro.
Ele mencionou a Operação Carbono Oculto, que expôs um esquema associado ao PCC envolvendo postos de combustíveis e contas em fintechs utilizados para lavagem de dinheiro. Essas fintechs têm vínculos com bancos tradicionais e fundos de investimento.
Gakiya alertou que uma interpretação ampla da classificação como terrorismo poderia afetar instituições financeiras que não têm relação direta com o PCC, mas que eventualmente recebem recursos indiretamente dentro de um sistema financeiro contaminado por dinheiro ilícito.
Ameaça à soberania nacional
O promotor também expressou preocupação com a soberania do Brasil. Ele destacou que a legislação antiterrorismo dos Estados Unidos permite operações fora do território americano sem necessidade de autorização do país envolvido.
“Isso poderia resultar em ações dentro do território brasileiro sem qualquer consentimento do governo local. Poderiam ocorrer operações militares ou intervenções da CIA no país, o que claramente afetaria nossa soberania nacional”, disse à Folha.
Posição oficial dos EUA
O governo norte-americano divulgou um comunicado afirmando que tanto o PCC quanto o Comando Vermelho estão entre as facções criminosas mais violentas do Brasil e controlam milhares de membros.
O secretário de Estado Marco Rubio ressaltou que as atividades dessas facções vão além das fronteiras brasileiras, atingindo também outros países da região e os Estados Unidos.
A administração Trump assegurou que continuará utilizando as ferramentas disponíveis para garantir a segurança nacional, além de desarticular financiamentos destinados aos grupos classificados como narcoterroristas.
A ausência de aviso ao governo brasileiro
Nos bastidores, o governo Lula tentava evitar essa decisão americana.
A análise feita no Palácio do Planalto indica que essa designação como grupo terrorista pode abrir espaço para ações mais rigorosas por parte dos Estados Unidos.
Uma fonte consultada pela GloboNews revelou que o governo brasileiro não foi previamente informado sobre essa decisão dos EUA.
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