A AGU (Advocacia-Geral da União) notificou o YouTube após o governo federal identificar 97 perfis que usam IA (Inteligência Artificial) para simular médicos e outros profissionais de saúde e divulgar tratamentos sem comprovação científica. Os conteúdos analisados foram publicados entre 1º de janeiro e 10 de julho de 2026.
A notificação foi enviada em 4 de setembro e estabeleceu prazo de 72 horas para que o YouTube tornasse indisponíveis os conteúdos identificados pelo Ministério da Saúde ou, conforme o caso, adotasse rótulos e avisos que deixassem clara a natureza artificial dos personagens. A plataforma também foi orientada a avaliar os demais canais e vídeos citados no relatório conforme suas regras sobre desinformação médica e conteúdo sintético.
Os vídeos apresentam avatares de aparência humana como médicos ou especialistas, atribuem qualificações profissionais inexistentes aos personagens e usam linguagem alarmista para dar credibilidade às informações. Parte dos perfis é direcionada especialmente à população idosa e alguns usam a aparente autoridade dos personagens para vender produtos, serviços e livros digitais.
Estímulo a automedicação e tratamentos ineficazes
O Ministério da Saúde alerta que esse tipo de publicação pode estimular automedicação e tratamentos ineficazes, além de levar pacientes a adiar consultas ou abandonar medicamentos prescritos. Os 97 perfis foram identificados pelo programa Saúde com Ciência. As informações também foram encaminhadas à PF (Polícia Federal) e ao CFM (Conselho Federal de Medicina).
Uma investigação publicada pela BBC News Brasil em julho identificou 29 canais em português dedicados a falsos médicos criados por IA que acumulavam mais de 70 milhões de visualizações. O levantamento, feito a partir de dados da organização CTRL+Z, encontrou uma produção de cerca de dez vídeos novos por dia.
A BBC analisou aproximadamente 27 mil comentários publicados nesses canais e encontrou relatos de idosos que afirmavam ter colocado em prática as orientações. Após ser procurado pela reportagem, o Google removeu alguns dos maiores canais do levantamento, que somavam cerca de 41 milhões de visualizações. Outros, no entanto, permaneceram disponíveis.
Em outra apuração, a BBC identificou ao menos cinco canais que usaram sem autorização o rosto e a identidade do otorrinolaringologista Hélio Brasileiro para criar vídeos com recomendações de supostos tratamentos naturais e afirmações alarmistas sobre saúde. O médico denunciou os vídeos ao YouTube e registrou boletim de ocorrência.
A Polícia Civil de São Paulo abriu investigação para identificar os responsáveis.
O Google informou que não vai comentar o caso.
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