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Naquela mesa

Porto Alegre HojePorto Alegre Hoje—abril 27, 20260
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Por: Igor Menezes Cordovil é Gestor de Marketing & Inteligência de Mercado do Grupo FAMETRO, Especialista em Política e Estratégia pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), e MBA em Marketing, Consumo e Neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Contato: [email protected]

Um dia desses estava chegando à academia e vi um vídeo no Instagram onde um jovem tocava violão e cantava para os filhos e a esposa, todos de pé em um canto apertado da cozinha do apartamento, que não deve ter dois metros quadrados. Parecia cena de antigamente: o pai toca e canta, o mais velho se entrega à melodia, o caçula tenta acompanhar a letra – até sabe alguns trechos – e a mãe prestigia com aquele olhar de esposa orgulhosa, sorrindo quando reconhece a música pelo dedilhado da viola. O verso da música era:

Naquela mesa ele sentava sempre e me dizia sempre o que é viver melhor

Naquela mesa ele contava histórias que hoje na memória eu guardo e sei de cor

Naquela mesa ele juntava gente e contava contente o que fez de manhã

E nos seus olhos era tanto brilho que, mais que seu filho, eu fiquei seu fã.

O artista surge com um dos maiores boleros de Nelson Gonçalves e, automaticamente, me lembro do Vovô Walter e do Vô Moisés, meus avós de Itacoatiara, que eram mais conhecidos que moeda de um real e, infelizmente, já partiram há alguns bons anos. Eles tinham jeitão de brabos e alegres ao mesmo tempo.

Ensinavam coisa séria de maneira simples, com pérolas como “quem não quer problema, não dá motivo”, e presenteavam os netos com muita conversa que virou aprendizado, sem avisar que eram lições para toda a vida. Diziam que cair de vez em quando faz parte e o importante era sempre se levantar. Avisavam que era para estudar muito, trabalhar direito e que, ser honestos, era obrigação. A vida parecia menos difícil quando podíamos nos aconselhar com a verdadeira voz da experiência de décadas vividas, que não tinha dó de dizer o que se precisava ouvir, sem medo ou receio de magoar. Era para aprender e não errar nunca mais.

Memória afetiva é tão bonita quanto é dolorida e não tenho como me lembrar deles, sem me emocionar de tantas saudades e do quanto a ausência deles é sentida em cada fim de semana, aniversário e fim de ano. É automático escutar um bolero e um filme curto de muitos capítulos rápidos passar pela cabeça como um relâmpago. É como se a mente dissesse “lembra daquele dia em que o Vô Walter fez uma curica pra gente correr no quintal?” ou “e o dia que o Vô Moisés deu um picolé de tapioca com goiabada na ponta?… O vô era legal que só”. A gente sente falta e pensa “será que ele tá me vendo hoje?”. A vida segue, mas seria bacana se nossos Vôs e Vós fossem eternos. 

Lembro do perfume de Seiva de Alfazema nas mãos quando ia pedir a bênção das avós, e ainda os ouço ralhando “desce daí senão eu vou chamar a tua mãe!”. 

Para mim, a melhor parte era o gosto musical porque, ainda que a gente não gostasse da música, era obrigado a ouvir. E ouvia tanto que acabava gostando depois que entendia a verdade da letra. Na casa do Velho Walter tocava Roberto Carlos. Na casa do Vô Moisés, que era mercearia de dia e o famoso Bar Mosantos, noite adentro, os boêmios da Velha Serpa se reuniam para tocar serestas ao vivo, cantando os boleros de Altemar Dutra e os sambas tradicionais de Cartola. Lembro que o Avô tocava violão e cantava de vez em quando.  Quanta lembrança boa. Só é uma pena que tenha sido rápido e a gente não tenha aproveitado tanto, pois hoje…

…Naquela mesa tá faltando eles. 

E a saudade deles tá doendo em mim…

Itacoatiaranaquela mesaNelson Gonçalves
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