Uma equipe de investigadores do DDPA/Seapi (Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação) identificou uma colônia robusta de um fungo verde do gênero Trichoderma, localizada em uma área da Quarta Colônia.
Esse fungo é considerado benéfico e é frequentemente encontrado em solos agrícolas e florestais, desempenhando um papel crucial na fertilidade biológica. Sua atuação é fundamental na ciclagem, solubilização e disponibilidade de nutrientes essenciais para as plantas. O microrganismo foi encontrado em um pedaço de madeira em decomposição, situado em uma extensa área de solo exposto e desprovido de vegetação.
A descoberta ocorreu durante uma visita técnica que visava planejar ações para a restauração agrícola e ambiental. Esta atividade faz parte de um projeto piloto desenvolvido pelo Ceflor (Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa Florestal – que integra o DPPA), em colaboração com a Emater/RS-Ascar.
O objetivo desta iniciativa é restaurar a mata ciliar ao longo do arroio Corupá (denominação que em tupi-guarani significa “Caminho das Pedras”) e implementar um sistema agroflorestal (SAF) em uma propriedade rural localizada na Linha Boêmia, no município de Agudo.
Inoculação do fungo nas mudas
O pedaço de madeira onde o fungo foi identificado será levado para o laboratório com a finalidade de isolar o microrganismo, que será inoculado nas mudas a serem plantadas na propriedade.
“Assim que nos deparamos com a colônia de Trichoderma no fragmento de madeira, reconhecemos prontamente sua relevância para os agricultores”, relata Gerusa Steffen, pesquisadora do Ceflor especializada em microrganismos do solo.
Os especialistas destacam a importância dos fungos do gênero Trichoderma para a saúde do solo. Eles não apenas facilitam a ciclagem de nutrientes, mas também atuam no controle biológico de doenças que afetam as plantas, além de promoverem a produção de enzimas e fitohormônios que estimulam o enraizamento.
Esses benefícios contribuem para um crescimento saudável das plantas, especialmente em áreas que passaram por degradação. A escassez de matéria orgânica no solo limita a presença e atividade desses microrganismos benéficos essenciais ao desenvolvimento vegetal.
Condições do solo degradado
A análise química realizada no solo revelou deficiências nutricionais e baixos níveis de matéria orgânica. Diante disso, está prevista não apenas a correção da fertilidade desse solo através da adição de insumos orgânicos e minerais, mas também o plantio de culturas de cobertura durante o inverno na área. Essa ação visa manter o solo protegido, prevenir erosões, melhorar sua estrutura e favorecer o estabelecimento dos microrganismos benéficos.
“As iniciativas deste projeto têm como meta não apenas replantar espécies nas áreas afetadas, mas também restaurar a vitalidade e qualidade do solo, elementos essenciais para a produtividade agrícola. Solos saudáveis resultam em plantas saudáveis que fornecem alimentos nutritivos à população. Por isso, é vital considerar a saúde como um conceito integrado; uma comunidade saudável depende tanto do ambiente quanto dos solos saudáveis”, enfatiza a pesquisadora.
Pós-enchente: desafios enfrentados
Após as inundações ocorridas em 2024, muitas propriedades na região da Quarta Colônia sofreram severos danos em seus solos e matas ciliares devido às águas. Árvores, pedras e imensas quantidades de solo foram arrastadas pela correnteza, alterando drasticamente a paisagem local. Segundo informações da Seapi, o processo de recomposição é demorado.
A propriedade rural escolhida em Agudo foi determinada juntamente com os profissionais técnicos da Emater na região. O plano para implementação do SAF foi elaborado por pesquisadores do Ceflor utilizando espécies que são do interesse dos agricultores locais. Muitas propriedades rurais foram severamente alagadas pelas chuvas intensas, causando mudanças significativas nos leitos dos arroios e rios bem como nas características dos solos agrícolas.
As espécies nativas frutíferas que serão utilizadas para recuperar a mata ciliar e estabelecer o SAF estão sendo produzidas no Ceflor em Santa Maria desde o ano passado. As espécies incluem cerejeira-do-rio-grande, goiabeira serrana e araçá. Além disso, algumas variedades exóticas como pessegueiro e nectarineira foram adquiridas em viveiros comerciais. No total, serão plantadas 100 mudas na área designada.
Os insumos necessários à recuperação da propriedade — incluindo corretivos para o solo, mudas florestais e sementes para culturas cobertoras — serão financiados por meio do projeto da Fapergs (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio Grande do Sul), dentro da iniciativa “Uma só saúde na Agropecuária: diagnóstico e resiliência diante das mudanças climáticas no Estado.”
“O intuito é transformar essa propriedade numa unidade demonstrativa que sirva como modelo para planos semelhantes destinados à recuperação de áreas afetadas”, esclarece Gerusa.
